TIMING
O sentido do momento
Eu não sou escritora. Resolvi escrever sobre Timing há alguns anos, logo que comecei a ter certeza de que temos um sentido diferenciado, não acusado pela ciência, como a visão, audição, etc. que é o relativo ao tempo.
Desconfiei disto há uns trinta anos, quando estava apaixonada e saía de moto dando voltas pelas estradinhas perto de minha casa, e sempre encontrava meu objeto de interesse ao sair no asfalto.
Podem pensar como é difícil encontrar alguém exatamente no momento em que você para diante do asfalto e um carro vem a mais de 80 por hora?
Não preciso dizer que ele parava o carro, e falava comigo um pouquinho – e meu coração de criança já ficava satisfeito.
E sempre me maravilhava com a exata convergência de nossos caminhos.
Mas foi muito tempo depois que comecei a me interessar pelos processos cerebrais que controlam nossos pensamentos e ações, como uma rede da qual não nos damos conta, a menos que comecemos a exercitar nossa percepção e nossa intenção também.
Nas últimas décadas tivemos vários livros – e mesmo romances, sobre a importância das coincidências, explicadas pela sincronicidade.
No entanto, a sincronicidade existe como a gravidade da Terra. Ela simplesmente existe. E você pode cair ou deixar cair algo se não respeitar esse fato.
A gravidade, interpretamos como uma lei e temos fórmula para calcular sua aceleração. Aviões decolam todos os dias e foguetes alçam os céus, mostrando que é possível superá-la. Pilotos iniciam sua carreira com pequenos aviões e procedimentos simples, mas podem ir adiante recebendo treinamento e lidando com instrumentos cada vez mais sofisticados.
A sincronicidade, entretanto, ainda não é interpretada como lei. Causa dúvidas, espanto, maravilhamento, mas, infelizmente, nunca certezas, a menos que comecemos a fazer um treinamento também, como os pilotos, usando os softwares de nossos cérebros.
1. O que é timing
Meu irmão, que é psiquiatra, dizia há muitos anos que temos os cinco sentidos tradicionalmente aceitos, mas além destes, existiriam mais dois sentidos.Um deles é a sensação espacial de como estão nossos músculos. Dobramos o braço e sabemos onde ele está. Muitas pessoas são chamadas de desastradas porque estão sempre esbarrando em algum objeto. Seria por alguma deficiência nesse sentido?
Porque se ele funcionar perfeitamente deveríamos sempre saber onde estão nossos joelhos e a que distância segura podemos nos movimentar. Acho que é o caso dos atletas, esportistas e bons atiradores, que parecem nem mesmo olhar para o lado de onde vem a bola ou para o alvo e, assim mesmo, acertam.
Esse sentido atua complementarmente com os demais – a visão e a audição, principalmente.
Não pode ser classificado como o sentido do tato, porque não é sentido sobre a pele – é mais profundo, contemplando os músculos lisos.
O outro sentido, que pode ser chamado de eletrição, é complementar ao da musculação, mas pode funcionar separadamente. Já me aconteceu de estar procurando, no carro, algum objeto, me distrair do foco da direção, e de repente, voltar a prestar atenção para não bater no carro da frente.
As vezes caminhamos pela rua e percebemos inconscientemente uma presença. Ao nos voltarmos, vemos uma pessoa conhecida. Às vezes, a percepção é acompanhada de alguma sensação antecipada que podemos descrever como agradável ou desagradável, mas é raro darmos-nos conta disto, a menos que sejamos bem atentos ao que se passa em nosso interior, o que pode ser quase impossível em alguns momentos. Como vivo muito só – ficando só por dias – percebo bem, ao sair, as energias de medo e ansiedade das pessoas que encontro.
Acho que a varredura desse sentido, percebendo objetos a nossa volta, pode ter diferentes dimensões físicas. Eu mesma achei que a minha dimensão é de uns quatorze metros.
O sentido de perceber a eletricidade, ainda que pequena, de objetos e pessoas, pode atuar complementarmente com os demais, talvez, em especial, o do olfato, que nós humanos não temos tão desenvolvido como os animais.
A varredura pode ser maior, talvez. Uma vez ia dirigindo de Cachoeira, no interior da Bahia, para Salvador, e, perto de uma curva, parei no acostamento, sem nem perceber o que estava fazendo. Quando minha irmã, que estava comigo, perguntou, o que fazia no acostamento, vi um caminhão enorme vindo pela contramão, na pista onde deveria estar. Meu sentido de varredura percebeu o caminhão?
Outro sentido que identifico, é o sentido do tempo.
O sentido do tempo pode ser um programa mais sofisticado, englobando possivelmente os demais e também um banco de dados que corresponde ao aprendizado interior de quanto tempo precisamos para exercer determinadas ações.
Assim, muita gente que sempre se atrasa, por exemplo, pode não ter clareza sobre o tempo necessário para simples ações como atender telefonemas e tomar café. Daí ficar desesperada por não ter tempo para nada, quando talvez, necessitasse apenas observar melhor seu próprio ritmo.
Um sentido do tempo desenvolvido pode levar uma pessoa – como eu – a ter um conceito de pontualidade intuitiva, ao invés de uma pontualidade “britânica”.
Ou seja, se eu me atraso para um encontro, ou prefiro não ir, a pessoa com quem quero me encontrar também estará atrasada ou preferindo não se reunir, sentindo-se aliviada com o cancelamento
Isto vale também para aulas – se não sinto que preciso ir, é possível que o professor também esteja impedido de comparecer.
Como diferenciar as situações e não parecer irresponsável perante as outras pessoas? Penso que a resposta é uma questão de desenvolvimento do programa e de um meio de comunicação.
Outros exemplos de utilidade podem ser:
hora para acordar: você marca pra acordar às oito horas mas acorda, sem saber porque, à seis. Por mim, pode acreditar que você vai precisar dessas duas horas! Alguma coisa vai exigir sua atenção ou atrapalhar sua movimentação.
encontrando água na vizinhança: já me aconteceu de estar numa casa na praia e não ter água potável para beber. Daí saí andando pela vizinhança e encontrei um homem com um copo de água mineral na mão. Essa água evidentemente, embora ele não soubesse, era para mim!
levando fósforos para casa: estava num supermercado e havia esquecido de colocar um maço de fósforos no carrinho. Daí que esse material só podia ser encontrado no andar superior e esse andar já se encontrava fechado. Mesmo assim, pedi licença ao caixa e fui até o elevador. Não se surpreendam se eu disser que havia um maço fechado de fósforos no banco do ascensorista, no elevador desligado, esperando por mim!
prevendo o uso de objetos: saí de casa e olhei para um par de sandálias, com a sensação de que deveria levá-lo comigo. Não levei, estava com muito peso. Mas, duas quadras depois, uma sandália que usava se partiu, e acabei tendo de comprar outro par, porque não tinha tempo para voltar atrás;
evitando buracos no asfalto¹.
E assim vai.
Eu sempre passei por gênio na escola ou faculdade e mesmo no trabalho, porque um dia antes achava uns papéis que tinham a ver com o assunto que seria tratado, do qual, é preciso reiterar – não tinha a menor idéia consciente que surgiria. Houve uma vez que estava totalmente distraída numa aula de Direito, e mesmo assim, anotei uma frase do professor que atingiu minha atenção momentaneamente. Ele, percebendo minha distração, fez uma pergunta. Voltando ao planeta, olhei para o papel à minha frente onde também estavam desenhadas caravelas com velas infladas e achei a frase que era a exata resposta que precisava. Meus colegas riram e me acharam incrível.
Há outros usos não testados, mas o mais útil talvez seja o de evitar perigos ou desconforto. Você segue pelo trânsito e resolve virar uma esquina e muda seu roteiro. Daí ouve no rádio que o caminho por onde seguiria está com um enorme congestionamento.
Meu filho mais velho, uma vez, rodando pela Via Dutra com colegas, à noite, em direção ao Rio de Janeiro, para participar da Eco...., resolveu tomar um café e parou, apesar do protesto de todos os outros, que queriam adiantar a viagem. Ele insistiu em parar. Ao descerem do carro, ouviram o bater de inúmeros carros que “engavetaram” adiante. Eles, no posto, estavam em segurança.
Evidentemente nestes casos se agradece a Deus. Mas o que não se agradece a Deus, com relação a esta máquina maravilhosa que somos, com nossos programas sofisticados – muitos deles, sem uso ou sem se saber como usar?
É possível também que nosso cérebro ou muitos cérebros não rodem os programas mais elaborados, e quem pode fazê-lo seja considerado santo, ou guru.
Quero tentar manualizar os procedimentos do programa do tempo, e ver se podemos abri-lo sempre que quisermos, ou ao menos quando precisamos dele para nos orientar ou nos salvar.